| I |
O que você não sabia sobre esse versículo |
Deus se apresenta com as duas letras que abrem e fecham o alfabeto grego, e tudo o que existe acontece dentro desse intervalo. O seu dia de hoje também cabe aí. Essa moldura merece ser vista de perto.
No limiar do Apocalipse, depois da saudação às sete igrejas, irrompe uma voz que se identifica de modo solene e absoluto: "Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, diz o Senhor Deus, que é, e que era, e que há de vir, o Todo-Poderoso".
É uma das autodescrições mais grandiosas de toda a Escritura, a primeira fala direta de Deus no livro.
O Apocalipse é tradicionalmente datado entre 90 e 96 d.C., escrito por João no exílio em Patmos. O versículo 8 está posicionado antes mesmo da primeira grande visão: é a assinatura divina que autentica todo o livro que virá.
Num tempo de perseguição imperial, em que César reivindicava títulos divinos e a Pax Romana parecia o poder supremo da história, Deus se apresenta com uma reivindicação que relativiza todo poder humano. Para igrejas ameaçadas por um império que parecia eterno, era subversiva e consoladora ao mesmo tempo.
"Alfa e Ômega" é citado constantemente, gravado em altares, vitrais e cruzes. O sentido popular é claro: Deus é o começo e o fim de tudo. Mas essa leitura, embora verdadeira, é apenas metade do que a figura grega comunica.
Nomear a primeira e a última letra do alfabeto não é apontar dois extremos isolados, é uma figura de linguagem precisa, o merismo, que ao citar os dois extremos abrange tudo o que existe entre eles. E o versículo sela essa totalidade com um título grego de soberania absoluta: Pantokrátōr.
A Palavra
A primeira peça é τὸ Ἄλφα καὶ τὸ Ὦ (tò Álpha kaì tò Ô), "o Alfa e o Ômega". Alfa (Α) é a primeira letra do alfabeto grego; ômega (Ω) é a última. À primeira vista, parece apenas uma maneira pitoresca de dizer "o primeiro e o último".
Mas a figura por trás é o merismo, um recurso que consiste em nomear dois extremos opostos para designar a totalidade que eles delimitam, incluindo tudo o que está entre eles.
O merismo é onipresente na Bíblia. Quando Gênesis 1:1 diz que Deus criou "os céus e a terra", não está listando dois itens, está dizendo o universo inteiro. Quando o salmista diz que Deus conhece o "meu deitar e o meu levantar" (Salmo 139:2), fala de toda a rotina.
Assim, "Alfa e Ômega" não significa apenas "o primeiro e o último", e sim todo o alfabeto, e, por extensão, tudo o que pode ser dito ou nomeado, do A ao Z.
Não "estou no começo e estarei no fim, e o meio se vira sozinho", mas "eu abranjo o início, o fim e todo o intervalo".
A fórmula temporal que segue confirma o merismo no eixo do tempo: ho ṑn kaì ho ên kaì ho erchómenos, "o que é, o que era, e o que há de vir".
A ordem incomum começa pelo presente: é uma expansão do nome divino de Êxodo 3:14, "Eu Sou o que Sou". A segunda peça sela tudo: ὁ Παντοκράτωρ (ho Pantokrátōr), "Todo-Poderoso", panto- ("tudo") + kratéō ("dominar, sustentar").
Não é onipotência abstrata, mas "aquele que domina e sustenta tudo", o Soberano sobre a totalidade. No registro da linguagem, do tempo e do poder, três merismos: nada escapa.
Há duas leituras erradas comuns, e elas reduzem o merismo a dois pontos. A primeira é a deísta dos extremos: "Deus está no começo (a criação) e estará no fim (o juízo), mas o meio, a história, o agora, corre por conta própria".
Mas o merismo afirma o contrário: nomear os extremos é abarcar tudo entre eles. Deus não é apenas o primeiro e o último capítulo; ele é o livro inteiro, página por página. A segunda é a do poder vago: "Todo-Poderoso significa que Deus, em tese, poderia fazer qualquer coisa".
Mas o título não fala de poder em potencial; fala de domínio em exercício, "Deus controla e sustenta tudo neste instante".
A leitura correta junta as três totalidades: Deus abrange toda a linguagem (Alfa e Ômega, e tudo entre as letras), todo o tempo e todo o poder. Não há ponto da realidade, palavra, instante ou força, fora do seu alcance.
O medo humano vive no "meio", no intervalo entre o que já foi e o que ainda não chegou, no agora incerto onde os impérios parecem mandar. O merismo de Apocalipse 1:8 fecha esse vazio: o meio não é terra de ninguém.
A história presente, com seus Césares, suas perseguições, não escapou ao domínio do Pantokrátōr; está contida nele, do A ao Z. Por isso o Apocalipse, livro de catástrofes, é também livro de consolo.
O padrão confirma a estrutura. Isaías 44:6: "Eu sou o primeiro e eu sou o último", o mesmo merismo, atribuído a YHWH. Colossenses 1:16-17 diz de Cristo que "tudo foi criado por ele... e nele tudo subsiste", origem, fim e o intervalo que subsiste nele agora.
E a última observação é cristológica: o título que abre o livro nos lábios do "Senhor Deus" reaparece no fim nos lábios de Cristo ressurreto (22:13): "Eu sou o Alfa e o Ômega, o primeiro e o último".
A reivindicação de abarcar todo o dizível, todo o tempo e todo o poder, exclusiva de Deus em Isaías, é assumida por Jesus. É a forma mais alta de o Apocalipse confessar quem ele é.
| III |
Reflexão de Fechamento |
Alfa e Ômega. A primeira e a última letra, e, por merismo, todo o alfabeto entre elas. Nomear os dois extremos não é apontar dois marcos distantes; é abarcar tudo o que está no intervalo, como "céus e terra" abarca o universo inteiro.
Deus não é só o começo e o fim de uma história que corre solta no meio. Ele é o livro inteiro, do A ao Z, origem, percurso e desfecho.
E sela essa totalidade no eixo do tempo (o que é, era e há de vir) e no do poder (Pantokrátōr, o que sustenta e domina tudo). O medo mora no meio, no agora incerto entre o que foi e o que virá.
O merismo fecha esse vazio: o meio não é terra de ninguém. É exatamente o que está entre o Alfa e o Ômega, e, portanto, em suas mãos.
O versículo continua amanhã. Todos os dias. O contexto que falta.
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